sábado, 29 de março de 2025

Crítica literária ou ataque pessoal?

    Esta semana, nas redes sociais, ocorreu uma nova polémica relativa à literatura. Refiro-me aos comentários de João Pedro George à escritora Madalena Sá Fernandes. Para os que não sabem do que falo, deixo aqui o link: https://www.jn.pt/1726249025/madalena-sa-fernandes-denuncia-misoginia-e-machismo-apos-comentarios-de-critico-literario-a-sua-aparencia/


    O autor desta "crítica literária" veio desculpar os seus comentários com a "liberdade crítica". Porém, o que constitui uma crítica literária? De acordo com a Infopédia (da Porto Editora), esta entende-se como "atividade que tem como objetivo tornar mais inteligível o texto da obra literária através de uma reflexão crítica que varia segundo as orientações culturais da época em que essa mesma atividade se desenvolve."


    Claramente entendemos que o propósito da crítica literária não jaz no escrutínio à imagem da autora. Nem a própria componente de marketing, se quisermos abordar os comentários por essa lente, tem lugar na crítica literária.


    Este episódio do videocast ter sido compartilhado com o pretexto de ser uma contribuição válida no espaço da crítica literária é, a meu ver, uma desfiguração plena do que esta constitui. A tentativa de descredibilizar uma autora com base não no que escreve, mas no que posta no Instagram não deve ter lugar no espaço de discussão textual. O corpo da autora ser mais ou menos atraente não tem lugar na análise interpretação de uma obra.

Não contem com o fim dos livros

Para refletir sobre o fim dos livros: "O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. Não se pode fazer uma colher que seja melhor que uma colher."

A internet obriga as pessoas a saberem ler e escrever mais que nunca. Ninguém usa um computador se não souber ler e escrever.  Mas o formato digital é realmente eterno? Ou será efémero? 

Numa reflexão maravilhosa, este livro desafia a pensar no objeto livro em formato papel. Prende mais a atenção do leitor, facilita a memorização e a aprendizagem. Ainda é a melhor tecnologia para garantir a sua eternidade. Há livros em papel com 500 anos. Os livros digitais de hoje estarão disponíveis daqui a 500 anos sem usarmos os velhos computadores ou e-Readers que os reproduzem hoje? 

Para amantes de livros, seja em que formato for, recomendo.


Algumas destas reflexões vão sendo passadas pelo nosso professor nas aulas. 

Bom fim-de-semana

Tânia

sexta-feira, 28 de março de 2025

Quando os livros se devoram, ninguém devora livros

 Publicado, hoje, no Público:

https://www.publico.pt/2025/03/28/culturaipsilon/opiniao/obesidade-editorial-2127203

A leitura integral do texto requer assinatura. Transcrevo a passagem que, com acertada lucidez, esboça o retrato duma indústria canibal, para aqueles que não tenham subscrição: 


"(...) A regra da cronofagia da indústria livreira determina que o tempo de vida de cada livro seja cada vez mais breve. A maior parte sucumbe sem glória, só uma ínfima parte sobrevive e continua a “circular” (a metáfora da corrida e da caminhada é amplamente utilizada no sector).

Utilizando um sóbrio conceito que dá conta das determinações desta orgia (um conceito que descreve muitas outras situações do mundo em que vivemos), podemos dizer que o sector editorial tem um funcionamento hipertélico, isto é, vai para além dos seus fins e anula-se na sua finalidade. Como o trânsito automóvel, que fica tanto mais lento quanto mais oferece os meios para se chegar ao destino rapidamente e em grande velocidade.

É uma entropia que deriva não da segunda lei da termodinâmica, mas do excesso de energia investida. Os livros em excesso têm um efeito de ocultação e produzem a falta. Daí a experiência psicadélica a que somos submetidos quando entramos numa livraria onde abundam as novidades vistosas. Só ao fim de alguns momentos, se conseguirmos superar todo o apelo à excitação a que somos confrontados por tanto ruído, é que nos conseguimos orientar."


terça-feira, 25 de março de 2025

Exercício 10 - OuLiPo

 

Diálogo – Houve um acidente ou estás doente?

Daniela: Já ouviste o que é que se passou com a Maria?

Amiga: Não, o quê?

Daniela: Ela teve um acidente a caminho da faculdade.

Amiga: Mas ainda agora estive com ela, tens a certeza?

Daniela: Como assim estiveste com ela? Ela está em coma em Santa Maria!

Amiga: Acabei de a ver entrar na FLUL. Já agora, pareces um bocado pálida, estás bem?

Daniela: Devemos estar a falar de Marias diferentes. Estou a falar de Maria, mãe de Deus.

Amiga: Hmm… Daniela, estás bem? Não estás a fazer sentido. Acho que é melhor chamar uma ambulância. Metade do teu rosto está descaído!

Daniela: Só porque não faço plásticas e ponho botox como tu e as tuas amiguinhas influencers não quer dizer que tenha o rosto descaído. Isto é a minha cara normal depois de fumar o meu charro matinal, acalma-te.

Amiga: Se isso é a tua cara normal, nem quero imaginar a que fazes quando estás doente. Mas então isso quer dizer que a Maria está bem?

Daniela: Hã? Que Maria?

Amiga: … Esquece.


Adriana Santos (eu)

Joana Sabino

João

Mariana

Salvador

sábado, 22 de março de 2025

«Ler é ser livre» na Torre do Tombo

 

O evento «Ler é ser livre» disponibilizará várias atividades ao longo do mês de abri. As discussões nos dias 2 e 16 de abril foram as que mais me chamaram à atenção, precisamente por incluírem problemáticas do mercado literário em Portugal.

Fica aqui o programa desses dias, para quem estiver curioso: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Documents/Programa_Oradores.pdf 

Cancelamento domingo

 O evento domingo no ateliê de António Jorge Gonçalves a propósito de dois novos livros na sua auto editora (pela primeira vez outros ue não ele) foi adiado "por razões familiares". 


quarta-feira, 19 de março de 2025

Lipograma Aula 5

 "Orgulho e Preconceito" discorre sobre Lizzy e um jovem rico cujo nome é proibido no contexto deste exercício. O envolvimento entre os dois é pouco promissor no início, pois ele é orgulhoso e Lizzy desenvolve um preconceito nesse sentido. Porém, ele é menos orgulhoso do que virtuoso e Lizzy rende-se no fim.

João Castro

Lipograma

 

Este é o filme de Nemo, um pequeno peixe cor de dióspiro que se perde do seu progenitor. O jovem peixe é muito teimoso e insiste em encobrir os seus medos fugindo do pai, sendo preso num consultório com outros peixes. O progenitor de Nemo decide socorrê-lo e no percurso conhece Dory, um peixe dócil que se esquece de tudo em poucos segundos. No decorrer deste desígnio, ocorrem episódios comoventes e muitíssimo perigosos. No fim existe o reencontro e vivem felizes os três. 

Beatriz Rocha

Feira do Livro de Poesia

 Bom dia a todos, venho aqui relembrar que a Feira do Livro de Poesia começou ontem e vai até dia 23 deste mês.


Joana Sabino

terça-feira, 18 de março de 2025

Exercícios de estilo

 Boa tarde a todos. Tendo em conta que há algumas semanas atrás falámos da oficina de escrita OuLiPo e que o professor partilhou o livro Exercices de Style de Raymond Queneau no Inforestudante, gostaria de partilhar um trabalho que realizei durante a minha licenciatura. Este projeto foi feito para a cadeira de Francês C1.2 em 2023 com a professora Âzar Renani e tinha por inspiração o livro de Queneau. O objetivo era recontar uma história simples de sete maneiras diferentes. Deixo três dos meus textos: narração, conto de fadas e jornalismo tabloide.

Mariana Bairras




segunda-feira, 17 de março de 2025

Livros de autor editor

 No próximo domingo o ateliê do António Jorge Gonçalves estará aberto. Serão lançados dois livros que ele editou. 


Lipograma

 Este é o conto de Ulisses que se perdeu e enfrentou os perigos de um ciclope com o nome de Polifemo, seres femininos poderosos e deuses enfurecidos. No fim, extingue todos os que querem o seu cônjuge e vive feliz juntos dos seus. 


Joana Sabino

domingo, 16 de março de 2025

Ainda o Hermano Almeida

A jornalista Inês Forjaz escreveu isto na sua página FB [nota: não corrigi gralhas, nem a do título desta entrada, os anexos também são dela]:

A internet decidiu que o caso Germano Almeida - Leya foi um gople de Marketing, está decidido.

Os burrocratas da Leya agradecem, porque não só escapam entre os pingos da chuva, como ainda passam por génios da publicidade.

Sucede que isto deu-me que pensar e, para não variar, em sentido contrário.

Para lá do ofendidismo de quem está habituado ao pedestal incontestado e lambe-botismo nacionais, este caso revela um cancro que se espalhou por tudo o que é empresa. A verdade é que o poder decisório passou das mãos de quem está directamente ligado às profissões, ou seja, de quem sabe o que anda a fazer, para CEOs, serviços jurídcos, administrativos, you name it, cujos objectivos são radicalmente diferentes do negócio em si. 

Temos então situações como esta, em que uns advogados e uma CEO qualquer mandam mais do que o editor Zeferino Coelho, da Caminho.  

Quem toma agora decisões editoriais são os CEO, administradores, e outros que tais. Não raras vezes, há mais gente a trabalhar na burrocracia do que na actividade principal. E os CEO (chique a valer) passam de empresa em empresa, ora decidindo sobre livros sem glúten, ora sobre cervejas sem álcool.

É isto que acontece também no jornalismo, com administrações e sub-direcções várias a tomar decisões de gabinete que afectam questões editoriais, contratando cada vez mais gente para a papelada enquanto esvaziam redacções. Acontece também nas escolas, hospitais, museus, enfim, por todo o lado, restando aos que têm as mãos na massa muito pouca margem manobra. Trabalha-se dentro de espartilhos impostos por gente que nada sabe, nem quer saber, sobre as profissões que anda a gerir.

Isto é um absurdo. Não há nenhuma golpada de marketing genial aqui. Só burrocracia, amiguismos e pequenos grandes poderes. 

Genial era o Eça e, na novela Ofendido-Leya-Germano, de que nem o escritor sai de pé, tinha de haver mais um ridículo supremo. Segundo o Expresso, "a Leya aceita agora publicar o livro sem quaisquer modificações, a não ser clarificar que Eça de Queirós foi trasladado para o Panteão Nacional". A sério? 

De certeza que Eça sacaria daqui umas belas personagens. À falta dele, proponho o Zink, que conseguiu encontrar a piada certa no meio desta parvoíce, acusando-se como tendo sido O Ofendido e autor da queixinha que ficou anónima. O Ofendido - fica já como título do livro para quem tenha paciência para escrevê-lo. Até dá para fazer uma série: O Ofendido Anónimo, O Ofendido Coxinho, O Ofendido e o CEO, etc. Pode ser que a Leya se interesse.









sábado, 15 de março de 2025

Lançar um produto

 Para lançar um livro há que ter técnica (saber ler um boletim meteorológico, ter à mão o calendário de efemérides, sobretudo futebol, preparar o terreno) mas é precisa também sorte. 

«Os livros são caprichosos», dizia Carmen Balcells, e Carlos da Veiga Ferreira repete amiúde a frase. 

Neste brevíssimo video, Dan Ackroyd conta que uma comédia «bem decente» tratou-se por sair ao mercado no mesmo fim-de-semana que O Silêncio dos Inocentes e um filme com Julia Roberts. 

Lipograma - Sem a letra A

Feito na aula:

O exercício foi ler o livro e escrever o resumo sem perder o sentido. O menino executou-o com sentido de dever e ver o professor feliz com o seu desempenho.

No fim, leu e releu mil vezes. Contente, entregou-o e esperou por um trejeito no rosto do professor.

Com respeito e conhecimento, o professor surpreendeu-o com um prémio de louvor.

 

Editado:

O exercício foi ler o livro e escrever o resumo sem perder o sentido. O menino ficou nervoso. Mesmo com receio, enfrentou o repto e executou-o com sentido de dever. Ver o professor feliz com o seu desempenho foi o objetivo. Reter conhecimento foi o estímulo.  

No fim, leu e releu mil vezes. É difícil empreender sem recuos e sempre bem. Felizmente ficou contente com o feito. Entregou-o ao professor e esperou por um trejeito no seu rosto.

Com conhecimento e reconhecimento pelo esforço, o professor surpreendeu-o com um prémio de louvor.

Tânia Dimas 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Há muitas formas de proibir um livro | Goethe-Institut

 A página Acesso Cultura publicou no LinkedIn sobre uma futura conferência que vai tratar de assuntos como a censura de um livro e as diversas formas que esta pode apresentar, no Goethe-Institut. Como não há muitas mais informações sobre o evento, por agora fica aqui a data:


quarta-feira, 12 de março de 2025

Departamento de marketing Vs. Departamento editorial




 O bom marketing diz que a explosão deve ser logo no início, contrariando a tradição estética de deixar o melhor para o fim. Nos romances policiais de hoje encontrou-se uma solução de compromisso: o livro pode ser chato no início (ainda não aconteceu o crime!) mas convém ter uma analepse a abrir, para sabermos que lá para a página 100 vai haver SS (Sexo & Sangue). Depois desse par de páginas terríveis - «Quando a polícia chegou, deparou com corpos esquartejados e nus» - vem o verdadeiro início: «Quatro meses/duas semanas/três horas antes». 

Esta semana a Leya atirou os foguetes, apanhou as canas e talvez tenha perdido um autor que, mesmo não vendendo muito, é recipiente da maior honraria nesta nossa língua. 

O estranho caso do escritor que ficou ofendido (e ameaçou pôr um processo) ao novo romance de Germano Almeida, uma comédia sorridente passada no festival Correntes d'Escritas. 

Entrementes, a novela Germano Almeida/Leya/Correntes d'Escritas não acabou, ou acabou hoje com um novo volte-face: editora e autor fizeram as pazes e o livro sairá já em breve, a aproveitar a magnífica publicidade. 

Alguém muito espirituoso disse: «O importante é que falem de nós, nem que seja parta dizer mal.» Há uma versão ainda melhor atribuída a Salvador Dali: «O importante é que falem de nós nem que seja para dizer bem


terça-feira, 11 de março de 2025

 Para quem tenha interesse, vai haver um debate com a autora palestiniana Adania Shibli e o filósofo russo Michael Marder sobre a literatura nos nossos tempos. Esta sexta-feira, 14 de março, às 19h, no auditório da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Mais detalhes aqui.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Exercício 10

 

Enjoos nervosos

Original

Partiu às 09:17, seis minutos de atraso. Ele sentou-se num banco à janela, e lembrou-se da marmita que levava para o almoço. Entrecosto com batatas assadas.

Lembrou-se de que deveria ter tomado mais atenção ao labor culinário da sua avó. Talvez tivesse aprendido que assar batatas, não é tão fácil quanto comê-las. Procurou esquecer a indigestão que se lhe apoderava do corpo, olhando para as cordilheiras que desfilavam perante os seus olhos.

As nuvens pesadas que se erguiam no horizonte anunciavam tempestade. Poderia ser neve, mas com o calor que tinha só vindo a aumentar nos últimos dias antes da viagem, com sorte vinha chuva. Os enjoos nervosos pioravam com cada curva e contracurva, a mente sem se conseguir tranquilizar mesmo com a vista do riacho sereno que se movia velozmente pelas janelas.

Finalmente ia apresentar-se presencialmente à comissão executiva e aos restantes colegas com quem partilhava o ofício e a quem só lhes tinha visto a cara, os gatos e as estantes de livro emolduradas pelo ecrã do seu computador. Trabalhava há dois anos para aquele escritório e não fazia sequer ideia a que os colegas cheiravam. O estômago outra vez às voltas. Pensar a que cheiravam os seus colegas não tinha sido claramente uma boa ideia.

O Zé da contabilidade deveria ser o pior de todos eles. O homem trabalhava a partir da Selva. Um lugar com internet mas sem chuveiro. Ele punha um background falso para manter as aparências, mas o seu estômago sabia a verdade. Sempre tivera um estômago sensível, capaz de captar o nojo através do ecrã. A dor causou o seu desequilíbrio e a cadeira, a traidora, o seu colapso.

Levantou-se a custo, e deparou-se com o seu almoço espalhado pelo chão, as batatas assadas a rebolarem até ao fundo da carruagem. Mais resignado que envergonhado, carregou no botão para fazer parar o autocarro, e saltou para a rua. Nesse preciso momento, cai a prometida carga de água, e por uns segundos deixa-se ficar ali, à chuva. Vou me despedir, decide.


Editado

O autocarro partiu às 09:17, seis minutos de atraso. Sentou-se à janela, e lembrou-se da marmita que levava para o almoço - entrecosto com batatas assadas. Deveria ter tomado mais atenção ao labor culinário da sua avó, talvez tivesse aprendido que assar batatas não é tão fácil quanto comê-las.

Procurou esquecer a indigestão que se lhe apoderava do corpo, focando-se nas cordilheiras que desfilavam perante os seus olhos. As nuvens pesadas que se erguiam no horizonte anunciavam tempestade. Poderia ser neve, mas com o calor que tinha vindo a aumentar nos últimos dias, com sorte vinha chuva. Os enjoos nervosos pioravam com cada curva e contracurva, a mente sem se conseguir tranquilizar, apesar da vista do riacho sereno que se movia velozmente pelas janelas.

Finalmente ia apresentar-se presencialmente à comissão executiva e aos restantes colegas com quem partilhava o ofício, e a quem só lhes tinha visto a cara, os gatos e as estantes de livros, emolduradas pelo ecrã do computador. Trabalhava há dois anos para aquele escritório e não fazia sequer ideia a que cheiravam os colegas. O estômago outra vez às voltas. Pensar no cheiro dos colegas não tinha sido boa ideia.

O Zé da contabilidade deveria ser o pior de todos. O homem trabalhava a partir da selva, um lugar com internet, mas sem chuveiro. Punha um background falso para manter as aparências, mas o seu estômago sabia a verdade. Sempre tivera um estômago sensível, capaz de captar o nojo até através do ecrã.

O enjoo causou o seu desequilíbrio e a cadeira, a traidora, o seu colapso. Levantou-se a custo, e deparou-se com o seu almoço espalhado pelo chão, as batatas assadas a rebolarem entre as pernas dos passageiros. Mais resignado que envergonhado, carregou no botão para fazer parar o autocarro, e saltou para a rua. Nesse preciso momento, caiu a prometida carga de água, e por uns segundos deixou-se ficar ali, à chuva. ‘É hoje que me despeço’, decidiu.

Alice 

Gonçalo

Tomás

Rita Negrão

Inês Grasina

sábado, 8 de março de 2025

Exercício 10 - segunda revisão

 

Dona, aproveita o sol

 

TD – O dia começou com um sol sorridente. Tudo estava calmo. O cão estava tão sonolento que foi preciso arrastá-lo para a rua.

TT – Com a imprevisibilidade a ser estação do ano, uma chuva miudinha começou a cair. É detestável a forma embaciada e húmida em que ficam os óculos.



MF – Não há tempo para limpar, que o cão ganhou energia ao sentir o cheiro do orvalho. E ainda bem, que há muito que tem de ser feito até o sol se pôr.




DS – O cão saiu para fora e começou a correr sob a chuva, pisando todas as poças e enrolando-se em todos os bocados de terra húmida.

TD – Deixei-o ficar todo sujo. Sentia-se feliz. Há muito que não via um sol assim. Aproveitei para observar. Apenas observar.

TD - Voltámos para casa. Ele com terra no pelo, eu com vontade de recomeçar o dia e viver a simplicidade de tudo de novo.

 

Editado

Dona, aproveita o simples

O dia começou com um sol sorridente. Tudo estava calmo. O cão estava tão sonolento que foi preciso arrastá-lo para a rua.

Com a imprevisibilidade a ser a estação do ano, uma chuva pequenina começou a cair. Não gosto nada do efeito que me faz nos óculos. Vejo tudo embaciado. Mas hoje não. Nem esta chuvinha me vai tirar o ânimo.

Não há tempo para limpar a visão. O cão ganhou energia ao sentir o cheiro do orvalho. E ainda bem. Há muito a fazer antes de o sol se pôr.

O cão começou a correr, pisando todas as poças que encontrou e enrolando-se na terra húmida bem cheirosa. Deixei. Sentia-se tão feliz como eu. Aproveitei para observar. Apenas observar.

Voltámos para casa. Ele a cheirar a terra e eu com vontade de recomeçar o dia e viver a simplicidade mais uma vez.


Mar

Debora

Tânia Teixeira

Tânia Dimas

Capas de livros eróticos: do expectável ao abonecado

 Olá a todos. Pensei em partilhar aqui os meus pensamentos acerca de uma controvérsia recente no mercado literário erótico.

Como alguns devem ter reparado, as capas ilustradas estão a apoderar-se de algumas secções das livrarias (nomeadamente fantasia e histórias românticas). Tem sido uma tendência crescente que fez sofrer alterações naquilo que os leitores procuram na aparência dos livros.

Agora, peço que observem 2 capas do mesmo livro, sendo a primeira escolhida para o lançamento deste em 2011 e a segunda introduzida há pouco tempo:



A primeira capa indica-nos logo o género literário: literatura erótica. No entanto, a segunda capa remete a mente para um romance YA. Tem sido esta a perspetiva de muitos comentadores nas redes sociais, que se revelam descontentes com esta estratégia de marketing.

Se antigamente não havia dúvidas quanto ao conteúdo mais picante em livros com corpos seminus, agora não é assim tão linear. Sem qualquer disclaimer do que está nas páginas, a única forma de alguém saber se o livro é adequado para leitores mais novos é por uma iniciativa própria de ir pesquisar. 

Ilustrações abonecadas nunca foram sinal exclusivo de algo ser ou não para adultos, mas o problema apresenta-se na questão da camuflagem. Se um grupo de pré-adolescentes estiver a rondar livros com conteúdo explícito (como já vi em certas livrarias), já não são as capas que dão o alerta. 

Não desejo que retirem qualquer livro para adultos das prateleiras, longe disso. Mas apelo para a instauração de algumas medidas que evitem os equívocos que estão destinados a acontecer. 

Deixo mais alguns exemplos abaixo. Descubram as diferenças.

YA

                                                    Literatura erótica

                                                    Literatura erótica

YA

sexta-feira, 7 de março de 2025

 Tendo em conta o tema das duas últimas aulas, gostaria de partilhar um exercício semelhante elaborado na aula de Inglês C1.3 (com o professor David Swartz). Este texto colaborativo foi escrito por 25 alunos, em 2022, e cada pessoa tinha por volta de 2 minutos para escrever a sua parte antes de passar a folha ao próximo. 


Exercício em aula.

Guerra Invencível


Deita-te e pensa em Portugal

No que te deu e no que te tirou

Em breve vais morrer por ele

E também tu serás tirado a alguém


Pois hoje estamos em guerra

E numa guerra ninguém vence

Quem sobrevive para contar a história

Acaba sempre morto por dentro


Quando voltam são maltratados

Mau povo que no fim só pensa em si

Afinal não vale a pena morrer por ninguém


Mesmo sozinhos continuam a ouvir as vozes

Que nem os medicamentos conseguem calar

Vozes daqueles que ficaram e conseguiram voltar


Guerra Invencível  Editado


Deita-te e pensa em Portugal

No que te deu, no que te tirou

Em breve irás morrer por ele

E serás tirado a alguém


Estamos em guerra

E a guerra ninguém vence

Se sobreviveres contas a história

Sem nunca revelar que estás morto por dentro


Voltas e és maltratado

(Mau povo que no fim só pensa em si)

Vale a pena morrer por alguém?


Sozinho, continuas a ouvir as vozes

Que os medicamentos não calam 

As vozes dos que não voltaram


---


Por:

Mariana Bairras

João Salazar Braga

Adriana Santos

Joana Sabino

Salvador Saldanha

Lições de Kurt Vonnegut.

Olá a todos,

Partilho convosco parte de uma palestra de Kurt Vonnegut sobre a «forma» das histórias.

Vale muito a pena. Vai ao encontro do que falámos na aula desta semana.

Bom fim-de-semana,

João

quinta-feira, 6 de março de 2025

MILAGRE!

 


Já é primavera!

Quem é do meio tem de se habituar ao meio. Isso implica frequentar as componentes do mundo editorial. 

O Fajardo é um excelente escritor espanhol (detalhe: casado com Karla Suárez, uma excelente escritora cubana, conheceram-se nas Correntes) e isto deve ser mais interessante que a aula de quinta-feira. 


Exercício 10

 Conversas de cabeceira


Original


São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência eletrizante.

- O que achas? - perguntei-lhe, após finalizar.

- Estou com uma certa dificuldade em perceber o teu texto - disse-me ela.

(Impressionante que a maior parte da gente tem “certas dificuldades”. A dificuldade delas nunca é errada).

- Qual é a parte que não estás a perceber?

- Não é uma parte em específico. É mais o texto num todo. Não me podes mostrar outra vez quando tiver dormido pelo menos oito horas? - responde-me ela com pouca paciência.

- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre de trombas. Como assim, não percebes o texto? Tens um mestrado em literatura medieval georgiana e não percebes um rascunho do teu namorado.

- Se o meu namorado soubesse escrever, talvez isto não acontecesse. Não tenho culpa que escrevas como um bêbedo que acabou de ter uma concussão ao cair da mota.

- Diz o roto ao nu! Se não for de há não sei quantas merdas de anos atrás, a menina não sabe ler, pobre coitada. Vai passear, sua analfabeta.

- Vês? É este tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo/PT/Instrutor de yoga/amante, Júlio, diz para eu evitar.

- Desculpa disseste que o Júlio é teu instrutor de Yoga? Então e a instrutora Sandra?

- Mudou-se para o Dubai.

- Ah que pena, gostava imenso dela.

- Sim, é uma pena. Vamos dormir?

- Posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.

- Não. Boa noite.

Mariana Bairras

João Braga

Adriana Santos

Joana Sabino

Salvador Saldanha



Editado


São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência entediante.

- O que achas? - perguntei-lhe ao finalizar a leitura.

- Não sei, sinceramente, estou com uma certa dificuldade em perceber o texto. - disse-me, cautelosa.


(Impressionante como toda a gente tem “certas dificuldades”. Nunca ninguém é humilde o suficiente para ter uma errada dificuldade)


- Qual é a parte que não estás a perceber?

- Não sei, acho que o desenvolvimento é muito longo e aborrecido, a conclusão é fraca, e a introdução despistou-me completamente; Tirando isso, gostei muito.

- Longo e aborrecido? O texto tem vinte linhas. E como assim a conclusão é fraca? É a melhor parte, juntamente com a introdução.

- Não sei, Jaime. Não me podes mostrar amanhã, quando tiver dormido pelo menos oito horas? - respondeu-me cansada e sem paciência.


(No entanto, para ver TikTok's arranja sempre energia e disposição)

- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre indisponível. Honestamente, eu é que não percebo. Como é possível teres um mestrado em literatura medieval georgiana, mas não compreenderes um rascunho do teu namorado? 

- É muito simples. Se o meu namorado soubesse escrever, isso não aconteceria. Para a próxima, ele que tente escrever sem parecer um pastor bêbedo iletrado que levou um coice na cabeça, de cinco ovelhas, quando tinha sete anos, o que resultou na perda de grande parte da sua função mental, e que, para além disso, é cego.

- Diz o roto ao nu! A tua capacidade de interpretação é igual à de um pelicano que não diferencia uma janela aberta de uma fechada. Vai passear, sua analfabeta.


(Não gosto da palavra "analfabeta", contudo, na altura, não me saiu mais nada. E ela tinha usado "iletrado", não lhe ia atirar com a mesma palavra, passaria por fraco e insosso)


- Vês? É esse o tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo / mental coach / Instrutor de yoga / amante, Júlio, me diz para evitar.

- O quê? O Júlio é teu instrutor de Yoga? E a instrutora Sandra?

- Mudou-se para o Dubai.

- Ah que pena, gostava imenso dela.

- Mesmo, eu também. Vamos dormir?

- Sim, mas antes, posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.


("Atirar o barro à parede", a expressão pela qual me rejo)



- Não. Boa noite.



Salvador Saldanha


quarta-feira, 5 de março de 2025

Cultura, a ovelha negra (de quem toda a gente gosta.

 Esta brincadeira é bastante séria. 

Pandemia e lista negra — como falámos hoje.

Exercício 10 | Subjetividade da Vida

Original
No princípio era o Verbo
E eu não sei como continuar
Escrever à pressão não é a minha praia
Só em esforço consigo rimar
Se fosse poesia livre, estava eu bem
Sem regras nem amarras
Só eu
Livre só os pássaros, é o que dizem
Mas onde estão os pombos nesta situação? Porque livres não são
Esforço, esforço, esforço…
Esforço rima com esboço
A conversa está à volta de liberdade
Que rima com verdade
Falam de verdade como quem aquece a sopa de mais um dia
Sabem lá eles o que é a verdade
Se não sei o que é verdade, faz dela uma matéria subjetiva?
Não é tudo subjetivo na vida
Não!
O ar que respiras é concreto

Editado
No princípio era o Verbo
E eu não sei como continuar
Escrever à pressão para mim é acerbo
Só em esforço consigo rimar

Esforço, esforço…
Até me contorço

Poesia livre? Estava eu bem
Sem regras nem amarras
Mas parece que há males que vêm por bem

Livres só os pássaros
Mas onde estão os pombos nesta situação?
Porque livres não são

Liberdade, liberdade…
Rima com verdade

Falam de verdade
como quem a sopa de mais um dia aquece
Sabem lá eles o que é a verdade

Será matéria subjetiva
ou de âmbito secreto?
Não!
O ar que respiras é concreto

João Castro

Beatriz Rocha 

Georgia Reginato 

Joana Gerardo

Exercício 10

 Beatriz, Catarina, Alexandre, Nicoleta

Insônias e Casamentos (original)

    O cérebro para, a visão desfoca e o barulho diminui. A falta de sono faz-se notar e só as insónias se pode culpar. Mas isto é mentira porque havia mais dois culpados. Os vizinhos da frente tinham começado a discutir à tarde, o que já era habitual. Muitos anos de casamento desgastam a relação. Mas será o casamento o culpado? Lá fora um casal perfeito, dentro de casa dois velhos saturados. A chama acabou e nenhum dos dois se esforçou para mantê-la viva. Agora resta apenas raspar a cera presa à mesinha azul do hall de entrada. Ou então cometer um crime e fazer o silêncio voltasse. Não... Isso eram as insónias a falar. Mas que fazer afinal? Talvez o melhor fosse preparar umas bolachas e ir levá-las aos vizinhos. Sim, parecia uma solução bem mais razoável.


Insónias e Casamentos (editado)

    O cérebro para, a visão desfoca e o barulho diminui. A falta de sono faz-se notar e só as insónias se pode culpar. Mas isto é mentira, porque havia mais dois culpados. Os vizinhos da frente tinham começado a discutir à tarde (o que já era habitual) e nunca mais se calaram. Muitos anos de casamento desgastaram a relação. Mas será o casamento o culpado? Por fora um casal perfeito, dentro de casa dois velhos saturados. A chama acabou e nenhum dos dois se esforçou para mantê-la acesa. Agora resta apenas raspar a cera presa à mesinha azul da entrada. Ou então cometer um crime e fazer com que o silêncio voltasse. Não... isso eram as insónias a falar. Mas que fazer afinal? Talvez o melhor fosse preparar umas bolachas e ir levá-las aos vizinhos. Talvez pedir, assim como quem não quer a coisa, que falem mais baixo e relembrar que as paredes do prédio são finas e que se ouve tudo. Sim, parecia uma solução bem mais razoável.

terça-feira, 4 de março de 2025

Exercício 10

"A cotovia"


(C) A casa junto da floresta

Estava rodeada por magia

Mas crescia por uma aresta

Um ninho de cotovia


(A) E lá naquela aresta

A jovem Teresa fingia

Que no ímpeto da floresta

Um belo pássaro nascia.


(N) E afinal um pássaro nasceu

Mas com ele outros tantos

E com isso a jovem moça muito sofreu


(B) Dia e noite cantavam e choravam

Como crianças perdidas

Que pelos pais ansiavam


"A cotovia" (editado)


(C) A casa junto da floresta

Estava rodeada de magia,

Mas crescia por uma aresta

Um ninho de cotovia.


(A) E lá naquela aresta,

A jovem Teresa fingia

Que no âmago da floresta

Um belo pássaro nascia.


(N) E afinal um pássaro nasceu,

Mas com ele outros tantos,

E com isso a jovem moça muito sofreu.


(B) Dia e noite cantavam e choravam

Como crianças perdidas

Que pelos pais ansiavam.


Catarina Marques

Alexandre Silva

Nicoleta Manoli

Beatriz Batista

NOTAS FINAIS (a lançar sexta-feira 20)

 Caros alunas e alunos, junto segue a proposta de nota. Pode haver enganos, pessoas que faltam na lista, pessoas descontentes com a nota. Qu...