quinta-feira, 6 de março de 2025

Exercício 10

 Conversas de cabeceira


Original


São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência eletrizante.

- O que achas? - perguntei-lhe, após finalizar.

- Estou com uma certa dificuldade em perceber o teu texto - disse-me ela.

(Impressionante que a maior parte da gente tem “certas dificuldades”. A dificuldade delas nunca é errada).

- Qual é a parte que não estás a perceber?

- Não é uma parte em específico. É mais o texto num todo. Não me podes mostrar outra vez quando tiver dormido pelo menos oito horas? - responde-me ela com pouca paciência.

- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre de trombas. Como assim, não percebes o texto? Tens um mestrado em literatura medieval georgiana e não percebes um rascunho do teu namorado.

- Se o meu namorado soubesse escrever, talvez isto não acontecesse. Não tenho culpa que escrevas como um bêbedo que acabou de ter uma concussão ao cair da mota.

- Diz o roto ao nu! Se não for de há não sei quantas merdas de anos atrás, a menina não sabe ler, pobre coitada. Vai passear, sua analfabeta.

- Vês? É este tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo/PT/Instrutor de yoga/amante, Júlio, diz para eu evitar.

- Desculpa disseste que o Júlio é teu instrutor de Yoga? Então e a instrutora Sandra?

- Mudou-se para o Dubai.

- Ah que pena, gostava imenso dela.

- Sim, é uma pena. Vamos dormir?

- Posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.

- Não. Boa noite.

Mariana Bairras

João Braga

Adriana Santos

Joana Sabino

Salvador Saldanha



Editado


São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência entediante.

- O que achas? - perguntei-lhe ao finalizar a leitura.

- Não sei, sinceramente, estou com uma certa dificuldade em perceber o texto. - disse-me, cautelosa.


(Impressionante como toda a gente tem “certas dificuldades”. Nunca ninguém é humilde o suficiente para ter uma errada dificuldade)


- Qual é a parte que não estás a perceber?

- Não sei, acho que o desenvolvimento é muito longo e aborrecido, a conclusão é fraca, e a introdução despistou-me completamente; Tirando isso, gostei muito.

- Longo e aborrecido? O texto tem vinte linhas. E como assim a conclusão é fraca? É a melhor parte, juntamente com a introdução.

- Não sei, Jaime. Não me podes mostrar amanhã, quando tiver dormido pelo menos oito horas? - respondeu-me cansada e sem paciência.


(No entanto, para ver TikTok's arranja sempre energia e disposição)

- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre indisponível. Honestamente, eu é que não percebo. Como é possível teres um mestrado em literatura medieval georgiana, mas não compreenderes um rascunho do teu namorado? 

- É muito simples. Se o meu namorado soubesse escrever, isso não aconteceria. Para a próxima, ele que tente escrever sem parecer um pastor bêbedo iletrado que levou um coice na cabeça, de cinco ovelhas, quando tinha sete anos, o que resultou na perda de grande parte da sua função mental, e que, para além disso, é cego.

- Diz o roto ao nu! A tua capacidade de interpretação é igual à de um pelicano que não diferencia uma janela aberta de uma fechada. Vai passear, sua analfabeta.


(Não gosto da palavra "analfabeta", contudo, na altura, não me saiu mais nada. E ela tinha usado "iletrado", não lhe ia atirar com a mesma palavra, passaria por fraco e insosso)


- Vês? É esse o tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo / mental coach / Instrutor de yoga / amante, Júlio, me diz para evitar.

- O quê? O Júlio é teu instrutor de Yoga? E a instrutora Sandra?

- Mudou-se para o Dubai.

- Ah que pena, gostava imenso dela.

- Mesmo, eu também. Vamos dormir?

- Sim, mas antes, posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.


("Atirar o barro à parede", a expressão pela qual me rejo)



- Não. Boa noite.



Salvador Saldanha


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