Conversas de cabeceira
Original
São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência eletrizante.
- O que achas? - perguntei-lhe, após finalizar.
- Estou com uma certa dificuldade em perceber o teu texto - disse-me ela.
(Impressionante que a maior parte da gente tem “certas dificuldades”. A dificuldade delas nunca é errada).
- Qual é a parte que não estás a perceber?
- Não é uma parte em específico. É mais o texto num todo. Não me podes mostrar outra vez quando tiver dormido pelo menos oito horas? - responde-me ela com pouca paciência.
- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre de trombas. Como assim, não percebes o texto? Tens um mestrado em literatura medieval georgiana e não percebes um rascunho do teu namorado.
- Se o meu namorado soubesse escrever, talvez isto não acontecesse. Não tenho culpa que escrevas como um bêbedo que acabou de ter uma concussão ao cair da mota.
- Diz o roto ao nu! Se não for de há não sei quantas merdas de anos atrás, a menina não sabe ler, pobre coitada. Vai passear, sua analfabeta.
- Vês? É este tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo/PT/Instrutor de yoga/amante, Júlio, diz para eu evitar.
- Desculpa disseste que o Júlio é teu instrutor de Yoga? Então e a instrutora Sandra?
- Mudou-se para o Dubai.
- Ah que pena, gostava imenso dela.
- Sim, é uma pena. Vamos dormir?
- Posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.
- Não. Boa noite.
Mariana Bairras
João Braga
Adriana Santos
Joana Sabino
Salvador Saldanha
Editado
São duas da manhã. A minha namorada olha para mim, confusa, enquanto disparo palavras a uma cadência entediante.
- O que achas? - perguntei-lhe ao finalizar a leitura.
- Não sei, sinceramente, estou com uma certa dificuldade em perceber o texto. - disse-me, cautelosa.
(Impressionante como toda a gente tem “certas dificuldades”. Nunca ninguém é humilde o suficiente para ter uma errada dificuldade)
- Qual é a parte que não estás a perceber?
- Não sei, acho que o desenvolvimento é muito longo e aborrecido, a conclusão é fraca, e a introdução despistou-me completamente; Tirando isso, gostei muito.
- Longo e aborrecido? O texto tem vinte linhas. E como assim a conclusão é fraca? É a melhor parte, juntamente com a introdução.
- Não sei, Jaime. Não me podes mostrar amanhã, quando tiver dormido pelo menos oito horas? - respondeu-me cansada e sem paciência.
(No entanto, para ver TikTok's arranja sempre energia e disposição)
- É sempre a mesma merda, Rita. Apoias-me zero, estás sempre a panar, sempre indisponível. Honestamente, eu é que não percebo. Como é possível teres um mestrado em literatura medieval georgiana, mas não compreenderes um rascunho do teu namorado?
- É muito simples. Se o meu namorado soubesse escrever, isso não aconteceria. Para a próxima, ele que tente escrever sem parecer um pastor bêbedo iletrado que levou um coice na cabeça, de cinco ovelhas, quando tinha sete anos, o que resultou na perda de grande parte da sua função mental, e que, para além disso, é cego.
- Diz o roto ao nu! A tua capacidade de interpretação é igual à de um pelicano que não diferencia uma janela aberta de uma fechada. Vai passear, sua analfabeta.
(Não gosto da palavra "analfabeta", contudo, na altura, não me saiu mais nada. E ela tinha usado "iletrado", não lhe ia atirar com a mesma palavra, passaria por fraco e insosso)
- Vês? É esse o tipo de comportamento tóxico que o meu psicólogo / mental coach / Instrutor de yoga / amante, Júlio, me diz para evitar.
- O quê? O Júlio é teu instrutor de Yoga? E a instrutora Sandra?
- Mudou-se para o Dubai.
- Ah que pena, gostava imenso dela.
- Mesmo, eu também. Vamos dormir?
- Sim, mas antes, posso só ler-te mais um texto? Este está bom, prometo.
("Atirar o barro à parede", a expressão pela qual me rejo)
- Não. Boa noite.
Salvador Saldanha
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