Enjoos nervosos
Original
Partiu às 09:17, seis minutos de atraso. Ele sentou-se num banco à janela, e lembrou-se da marmita que levava para o almoço. Entrecosto com batatas assadas.
Lembrou-se de que deveria ter tomado mais atenção ao labor culinário da sua avó. Talvez tivesse aprendido que assar batatas, não é tão fácil quanto comê-las. Procurou esquecer a indigestão que se lhe apoderava do corpo, olhando para as cordilheiras que desfilavam perante os seus olhos.
As nuvens pesadas que se erguiam no horizonte anunciavam tempestade. Poderia ser neve, mas com o calor que tinha só vindo a aumentar nos últimos dias antes da viagem, com sorte vinha chuva. Os enjoos nervosos pioravam com cada curva e contracurva, a mente sem se conseguir tranquilizar mesmo com a vista do riacho sereno que se movia velozmente pelas janelas.
Finalmente ia apresentar-se presencialmente à comissão executiva e aos restantes colegas com quem partilhava o ofício e a quem só lhes tinha visto a cara, os gatos e as estantes de livro emolduradas pelo ecrã do seu computador. Trabalhava há dois anos para aquele escritório e não fazia sequer ideia a que os colegas cheiravam. O estômago outra vez às voltas. Pensar a que cheiravam os seus colegas não tinha sido claramente uma boa ideia.
O Zé da contabilidade deveria ser o pior de todos eles. O homem trabalhava a partir da Selva. Um lugar com internet mas sem chuveiro. Ele punha um background falso para manter as aparências, mas o seu estômago sabia a verdade. Sempre tivera um estômago sensível, capaz de captar o nojo através do ecrã. A dor causou o seu desequilíbrio e a cadeira, a traidora, o seu colapso.
Levantou-se a custo, e deparou-se com o seu almoço espalhado pelo chão, as batatas assadas a rebolarem até ao fundo da carruagem. Mais resignado que envergonhado, carregou no botão para fazer parar o autocarro, e saltou para a rua. Nesse preciso momento, cai a prometida carga de água, e por uns segundos deixa-se ficar ali, à chuva. Vou me despedir, decide.
Editado
O autocarro partiu às 09:17, seis
minutos de atraso. Sentou-se à janela, e lembrou-se da marmita
que levava para o almoço - entrecosto com batatas assadas. Deveria ter tomado
mais atenção ao labor culinário da sua avó, talvez tivesse aprendido que assar
batatas não é tão fácil quanto comê-las.
Procurou esquecer a indigestão
que se lhe apoderava do corpo, focando-se nas cordilheiras que desfilavam
perante os seus olhos. As nuvens pesadas que se erguiam no horizonte anunciavam
tempestade. Poderia ser neve, mas com o calor que tinha vindo a aumentar nos
últimos dias, com sorte vinha chuva. Os enjoos nervosos pioravam com cada curva
e contracurva, a mente sem se conseguir tranquilizar, apesar da vista do riacho
sereno que se movia velozmente pelas janelas.
Finalmente ia apresentar-se
presencialmente à comissão executiva e aos restantes colegas com quem
partilhava o ofício, e a quem só lhes tinha visto a cara, os gatos e as
estantes de livros, emolduradas pelo ecrã do computador. Trabalhava há dois anos
para aquele escritório e não fazia sequer ideia a que cheiravam os colegas. O
estômago outra vez às voltas. Pensar no cheiro dos colegas não tinha sido boa
ideia.
O Zé da contabilidade deveria ser
o pior de todos. O homem trabalhava a partir da selva, um lugar com internet,
mas sem chuveiro. Punha um background falso para manter as aparências, mas o
seu estômago sabia a verdade. Sempre tivera um estômago sensível, capaz de
captar o nojo até através do ecrã.
O enjoo causou o seu desequilíbrio
e a cadeira, a traidora, o seu colapso. Levantou-se a custo, e deparou-se com o
seu almoço espalhado pelo chão, as batatas assadas a rebolarem entre as pernas
dos passageiros. Mais resignado que envergonhado, carregou no botão para fazer
parar o autocarro, e saltou para a rua. Nesse preciso momento, caiu a prometida
carga de água, e por uns segundos deixou-se ficar ali, à chuva. ‘É hoje que me despeço’,
decidiu.
Alice
Gonçalo
Tomás
Rita Negrão
Inês Grasina
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