A maneira mais justa de colocar duas coisas em relação é fazê-lo quando ambas se encontram no mesmo plano ideológico. Posto isto, decidi estabelecer um termo de comparação entre duas edições que, partilhando o mesmo princípio de concepção da contracapa, apresentam resultados distintos.
A contracapa da edição portuguesa do livro Tango de Satanás, publicado pela Antígona, atesta da riqueza interpretativa que pode surgir dum hábil exercício de minimalismo estético. O elemento figurativo que surge do jogo entre as tonalidades preto-laranja remete para uma ideia de febril aspereza. Duas nuvens flutuam, pressagiosas, sob as montanhas despidas.
Sobreposta a essa imagem, uma frase brota dessa inóspita paisagem. Um excerto retirado do texto que condensa a ideia-chave do romance. Desprovido de qualquer aparato textual exterior ao próprio texto, o leitor confronta-se com o manifesto poder de sucção da seguinte frase: "Quando julgamos que nos vamos libertar, na verdade estamos apenas a mudar as cadeias." O editor, parte do salutar pressuposto de que ninguém seria capaz de vender melhor um livro do que o próprio autor. Especialmente se tiver jeito para a escrita.
Nesta contracapa da edição portuguesa do livro O Senhor de Bougrelon, publicado pela Sistema Solar, a abordagem minimalista esgota-se na sua própria insuficiência. Verteu-se sobre a capa um inócuo cinzento. Sobriedade que descaracteriza. A mancha cinzenta não prenuncia o ambiente do texto e, com este, não dialoga. Existe por capricho arbitrário.
A informação que identifica o livro, autor, tradutor e prefaciador da obra, assim como a frase que indicia o assunto do texto, esconde-se timidamente na parte superior da folha. Para além deste questionável aproveitamento do espaço, a frase escolhida para nos apresentar a obra revela uma atroz preguiça criativa, excluindo-se da tarefa de apresentá-la ao leitor. O livro surge como o epíteto duma qualidade presente na escrita do autor: "A mais nobre insolência de Jean Lorrain". O que faz com que só exista por referência à sua restante obra. Este texto existe na medida dos outros. Ao invés de empregar uma frase que sugue o leitor para a narrativa - como no caso da contracapa previamente discutida - aqui pede-se que este vá conhecer os outros livros, por forma a ter uma noção sobre o que aqui é tratado. O minimalismo, quando mal aplicado, soa sempre a desleixo, indolência ou snobismo.
Gonçalo Duarte Pinto


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