Trabalho sem talento fica curto, talento sem trabalho também fenece cedo. É um luxo ter uma profissão onde sejamos nós a gerir o nosso tempo, mas é também um peso, nem toda a gente aguenta. Uma vez, nos anos 90, fui para um Retiro de Escrita norteamericano com mais duas dezenas de artistas onde, ao fim de dez minutos, estava tudo cá fora na palheta, porque na verdade não gostávamos da chatice de fazer coisas, só gostávamos de brincar aos cágados. O único tipo sério que ali havia era um senhor chamado Lawrence Block. Mais tarde descobri que aquele fulano mal.encarado que não falava com ninguém era o único profissional ali. Tudo o resto éramos impostores. Pelo menos, naquela altura.
Mentir aos outros é bom (só é crime se formos apanhados), mentir a nós próprios é totó. E nesta área de serviço todos somos apanhados, uns mais tarde, outros mais cedo.
A síndrome do impostor nunca nos larga, a uns sem razão (estamos apenas a passar uma crise de falta de confiança), a outros com razão.
O OuLiPo é uma das mais interessantes oficinas de escrita do século XX. Vale a pena
Um texto publicado tem forma e conteúdo. Tem de haver adequação entre ambas, ou mesmo fusão, sinergia, uma cópula tal que a dado ponto já nem sabemos qual é qual. Num texto literário a coisa complica-se ainda mais, porque a forma é também conteúdo (e o conteúdo também forma). Talvez seja uma boa definição de poesia: texto onde o dito é inseparável do dizer. Ou mesmo texto onde o modo de dizer é mais importante que o dito.
Pensemos nos nossos exercícios como testes psicotécnicos. Ou como a Velociraptor do primeiro Parque Jurássico (o livro de Michael Crichton também merece leitura) a testar a jaula à procura de pontos fracos. (No nosso caso, também de pontos fortes.) Curiosamente, é muito parecido com o que faz o OuLiPo: criar constrangimentos para melhor estimular a criatividade. E, em vez de «tentarmos ser imaginativos» (um erro, tentar invocar forças que não controlamos), limitarmo-nos a ver como descalçar a bota.
Talento, inspiração, inteligência, gosto, sensibilidade são forças misteriosas, que existem mas tendem a não vir quando as chamamos - e gritarmos e ralharmos só piora.Trabalhemos então a componente técnica que podemos controlar... mas sempre tendo a noção de que a técnica é a mais mediocre e trivial componente do nosso trabalho.
No Inforestudante enviarei Exercícios de Estilo (1947), um livro do oulipista Raymond Queneau já partilhado com alguns colegas no semestre passado. Aconselho também a leitura de Cidades Invisíveis (1972) de Italo Calvino.
Obrigada. Muito interessante. Dos exercícios que li até agora, os que mais gostei foram o "duplicata" e o "análise lógica".
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