Por Isabel Minhós Martins, editora da Planeta Tangerina, hoje:
Querido Babo, o nosso Babo
Para os leitores do Planeta Tangerina o nome Carlos Grifo Babo soa, de certeza, familiar. Vem em praticamente todas as nossas fichas técnicas, acompanha-nos há mais de 20 anos. O Babo, como lhe chamávamos, era o nosso revisor. Era um revisor muito querido e especial. Revia os textos com rigor e cuidado, mas sem os olhos burocráticos que por vezes se encontram em alguns revisores. Era picuinhas, sim, mas tão inteligente que sabia bem onde deixar passar vírgulas. Revia com liberdade, e fazia-nos sentir livres. Era uma pessoa com um conhecimento profundo da Língua Portuguesa e, nesta profundeza, não se encontrava só a preocupação com concordâncias, pontuações, sintaxes e ortografia, mas aquele saber de quem já leu muitos quilómetros de texto. O Babo conhecia a origem das palavras. Sabia latim, francês, inglês, espanhol, italiano. Sabia muito mais do que aquilo que nos dizia, muitas mais do que aquilo que lhe perguntávamos. Era de hoje e de outro tempo, um tempo em que se levava a sério a revisão de texto (nos jornais, nas agências de publicidade).
O Babo era contido nos elogios, mas percebíamos logo se um livro o tinha tocado “este, por acaso, correu-vos bem”. Era metódico. Não gostava de interrupções. Tínhamos de ligar e marcar antes. Conseguia ser rápido quando estávamos aflitos, e nesses dias mandava-nos tomar um café enquanto fazia a revisão para não estarmos ali a atazaná-lo. Precisava de sossego. Tinha os seus rituais. Sobre a mesa de trabalho, alinhava canetas de várias cores, lapiseiras e post-it’s, com que fazia marcações nas páginas das maquetas. Escrevia números que remetiam para notas escritas no computador em páginas A4, onde explicava cada correção ou sugestão de mudança: “A vírgula aqui não tem razão de ser”, “Aqui, a decisão é toda vossa” ou “imprescindível uma vírgula em vão. E não é uma vírgula ‘em vão’” 😊.
Pelo meio, falava e ria-se connosco: “Isso era dantes! Agora é Egito! Mas continuamos a ter egípcio e egiptólogo. E até uma Santa Maria egipcíaca!” ou “Pôr do sol deixou de ter hífenes, nem um”.
O Babo também escrevia. Lia muito, adorava policiais, era um cinéfilo como há poucos. Dormia a sesta. Não usava computador, a não ser para escrever as tais notas que remetiam para números na maqueta. Não recebia nem enviava emails, e ainda bem, senão não teríamos tantas oportunidades de o ir cumprimentar a Linda-a-velha, onde morava com a São.
O nosso querido Babo morreu ontem à noite.
Uma das últimas coisas que pediu foi o volume da letra S da enciclopédia, assaltado por uma dúvida em relação ao significado de uma palavra. Não sabemos que palavra era. Só nos ocorre uma, muito óbvia. Já nos começámos a despedir do Babo há uns meses e, ele, apesar de também se ir despedindo, continuava a trabalhar. Tinha 88 anos. Trabalhou até ao fim.
Nós vamos gostar dele até ao fim.
Obrigada.
Saudades, querido Babo.

Sem comentários:
Enviar um comentário