domingo, 6 de outubro de 2024

Boas e Más Contracapas

 

Boas e Más Contracapas

Na análise das contracapas de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e Numa Casca de Noz, de Ian McEwan, observa-se um contraste interessante entre o que considero ser uma boa e uma má contracapa.


A contracapa de Numa Casca de Noz é marcada pela sua extrema simplicidade: apenas a fotografia do autor ocupa este espaço. Num livro cuja capa já exibe o nome de Ian McEwan em destaque, ocupando mais de um terço da capa, e que ainda ostenta a frase “Do autor de Expiação”, a opção de colocar a sua imagem na contracapa parece-me uma tentativa clara de vender o autor, em vez de promover o livro em si. Embora o design criativo do título remeta para o significado da obra, quem procura na contracapa uma pista sobre o enredo ou algum incentivo adicional para ler o livro encontra-se perante um vazio. No meu caso, o que me levou a comprar o livro foi uma entrevista televisiva em que McEwan falou sobre a história; sem isso, a contracapa por si só nunca teria despertado a minha curiosidade.



Por outro lado, a contracapa de Ensaio sobre a Cegueira é um exemplo de simplicidade eficaz. Ao invés de críticas genéricas e anónimas de jornais, que muitas vezes parecem poder ser aplicadas a qualquer livro, encontramos uma epígrafe do próprio Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Esta frase é simultaneamente breve e poderosa, capturando a essência do romance sem revelar o enredo, deixando ao leitor a tarefa de descobrir o significado profundo por trás das palavras. O nome do autor, discreto na contracapa, assume uma posição de humildade, confiando no facto de que o leitor já o reconhece ou será atraído pelo título. Para mim, o Prémio Nobel que Saramago ostenta é a única validação externa de que necessito. Além disso, a referência subtil à caligrafia de Chico Buarque, amigo próximo do autor, é um tributo elegante à amizade e ao apoio mútuo entre ambos.

Assim, o contraste entre as duas contracapas destaca a importância do conteúdo e da forma na apresentação de uma obra, sendo a de Saramago um exemplo de como poucas palavras podem dizer muito, enquanto a de McEwan peca por não dizer nada.


- Margarida Silva -

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