Lançamento d’A Lenda das Quimeras, de Patrícia Fernandes
Preconceito,
revolta, impotência e limitação. Estas são as quatro razões que levaram os
autores de literatura fantástica Cristóvão
Correia, Bruno Martins Soares,
Patrícia Sá
e Mário Seabra Coelho a enveredar
pela escrita de ficção em inglês.
No dia 19 de
setembro de 2024, no Fórum Fantástico, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa,
os quatro autores teceram críticas incisivas ao mercado editorial português no decorrer
do painel “Quando a Ficção Portuguesa escreve Inglês”, descrevendo-o como
limitado a um público exíguo e controlado por editoras que selecionam obras e
autores a dedo. Concordaram unanimemente que a única vantagem real que as
editoras poderiam oferecer seria o marketing, mas lamentaram que este
raramente receba o investimento necessário, sendo relegado aos próprios autores
e aos seus seguidores nas redes sociais. Apesar das desvantagens associadas à
escrita em inglês – como a concorrência mais feroz e as dificuldades
linguísticas – os autores reconheceram que esta língua abre caminho para um
público leitor muito mais vasto e dinâmico.
Durante o
debate, uma intervenção da audiência destacou-se: “Isto é um pouco como as
ciclovias de Lisboa: ninguém as queria, mas, quando as construíram, os
ciclistas surgiram. Se não escrevem em português, como é que poderemos ler em
português?”. O painel respondeu com humor e aprovação, mas Mário Seabra Coelho
não hesitou em afirmar: “Tenho mais interesse em alcançar sucesso do que em
saber se os portugueses leem em português.”
No seguimento deste painel,
ocorreu o lançamento do livro A Lenda das Quimeras, da autora Patrícia Fernandes. Trata-se
de uma das mais recentes apostas da editora Saída de Emergência, que tem
procurado dar voz a novos talentos da ficção fantástica portuguesa.
O livro narra
uma história sombria, passada em 1888, em que Alfreda, uma jovem de 23 anos, se
refugia numa vila remota após terminar de forma abrupta um romance que provocou
escândalo entre os seus familiares. Na vila de Fim da Caixa, Alfreda espera
encontrar paz, mas depara-se com uma atmosfera inquietante e hostil. A
descoberta de um segredo obscuro na vila coloca a sua vida – e talvez a sua
alma – em perigo.
A apresentação
foi breve, com menos de 10 minutos, e a autora, visivelmente nervosa, teve uma
estreia modesta. Como nova autora, poucos conheciam o seu trabalho, e as
questões que surgiram da parte do moderador, Rogério Ribeiro, foram mais
uma extensão das discussões do painel anterior, focado nas dificuldades de se
escrever em português. A sessão de autógrafos que se seguiu decorreu de forma
tranquila, mas o público pequeno e pouco reativo não proporcionou um diálogo
dinâmico com a autora.
Foi o primeiro
lançamento a que assisti, e a simplicidade do evento contrastou com a
profundidade do tema do livro. O moderador foi cuidadoso, tentando fazer a
autora sentir-se confortável e à vontade. Numa próxima vez, espero poder
assistir a um lançamento de um autor cujo trabalho já conheça, para poder
contribuir de forma mais ativa para a troca de ideias.
A escritora fará
mais uma apresentação do livro já no próximo fim de semana, no Festival BANG!, que decorre de 27 a
29 de setembro nas Caves Ramos Pinto, em Vila Nova de Gaia. Será mais uma
oportunidade para o público conhecer a autora e a sua obra, num evento que
promete reunir diversos amantes de ficção fantástica.

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